Friday, April 04, 2008

rraurl.com :: resenhas | O passo adiante do Dark Side of The Moon

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Thursday, July 26, 2007

=Uma chance para um poeta dos bons=


Eu tenho só uma chance de ser bom. O momento há de passar como passam os pensamentos que no instante seguinte, não estão mais ali. Há de se ter atenção porquê eu não vou ter outra chance de tratar bem, de ser agradável, simpático, cortês.

Eu tenho só uma chance de ficar leve. E por sorte foram duas as vezes. A primeira foi votando pra casa quando a manhã da fazenda fez cara de tédio, do dia modorrento que por aí vinha e da descoberta que, na verdade, cheiro de mato tem bouquet de esterco. A segunda vez foi hoje, mas foi à noite. Porquê de noite do mesmo jeito que não se vê o azul do céu, não se vê os rostos e não se vê a cor dos olhos, a não ser se olhar bem de pertinho – só que olhar coisas de pertinho é ruim, a sensação é de que você invadiu algo que não deveria como um detalhe da pele, o excesso de corretivo, uma unha quase encravada.

Eu tenho só uma chance de ser crítico. E hoje à noite tinha uma sujeira no rosto da menina que lavava os copos no bar, parecia um sombreado proposital mas na verdade era uma sujeirinha, mesmo. Falta de banho. Falta de paciência. E aí um homem assim, quase-bom, mas meio bebum, chega e acha que tem o direito de achar defeito nos outros. E nem precisou olhar tão de perto assim.

Eu tenho só uma chance de ser medíocre. Pra sempre. Falta de porra nenhuma pra fazer é a pior das coisas, todo mundo está sempre cheio de porra nenhuma pra fazer e nunca tem tempo de sentir falta de fazer nada. Quantas vezes se para pra pensar que na verdade todos os seus pensamentos não te fazem menos trivial, comum e mediano do que você possa imaginar. As virtudes encurtam caminhos, e se Deus tem um plano para todo mundo é bom ser amigo dele o mais cedo possível – dizem que é feito de luz e ofusca quando chega.
Eu tenho só uma chance de ver Deus. Com ácido não vale, mas ter virtude pra isso dá trabalho e a cara daquela moça, com uma sujeirinha feiosa no rosto, não deixava o ambiente confortável e quis avisar, meio que assim sendo camarada. Desisto. Se fosse falta de banho podia ofender, se fosse falta de paciência não seria comigo que a teria e ela poderia descobrir que dentre todos ali naquele balcão, eu era o que menos tinha porra nenhuma pra fazer, ela sabia que há seis meses que não trabalhava direito, tinha até um dinheirinho que economizava e minha tia velha remediava a vida.

Eu tenho só uma chance de mudar. Poeta de araque, vivo gastando o tempo que não tenho pela falta de porra nenhuma pra fazer achando belezas escondidas, objetos perdidos em antiquários suspeitos dentro do calabouço da minha mente, trôpega e desfigurada pelas mesmices e vulgaridade dos meus pensamentos e atitudes. Na verdade, talvez fosse mesmo uma sombra no rosto da moça.

Naquele noite dormi bem. Me senti poeta. Dos bons.

=Emburrecimento=

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E então, emburreci.

Não entendo mais piadas, e o inglês que bem pronunciava,

sumiu.

Os textos dos editoriais, fofocas matinais,
jogos mentais, cumplicidade de casais.

A rota alternativa, a mentira precisa.

Perdi.

Agora sou eu em branco, aprendiz de mim com notas baixas.

As ofensas sem defesa, as desculpas não pedidas, a promessa não cumprida, a contabilidade deixada

em
cima
da
mesa
de quem mesmo?

Se puder escolher, depois de emburrecer,
farei uma bolha de sabão com quatro lados, uma roda de sapatos,
uma roupa de rojão.

Não terei mais agenda, rostos favoritos
e dias santos seriam esquecidos, todo dia.
Pediria meu endereço em outro bairro, compraria fiado
e pagaria no dia errado.

Trocaria seu nome, usaria meias brancas e calça azul-marinho, gravata de flores com detalhe cor-de-vinho, e elogiaria desconhecidos.

Burro, assim, não entendo mais a culpa,
não conheço falsidade nem traços de intenções
com disfarce de milagre.

Pensando bem, que bom que emburreci.

Friday, July 07, 2006

=Para Theo=

http://www.overmundo.com.br/banco/para-theo

Eu quero te olhar, mas sem Você me ver.
Ter um chão para rolar,
te esmagar de levinho
até Você reclamar.

Eu quero te complicar, te trazer dúvida,
uma idéia pra voar.
Fazer careta, falar bobagem,
te aproximar do mar.

Eu quero para Você um Amor,
uma passagem, dois amigos,
algum dinheiro
e um pouco de dor.

Eu quero fazer uma fogueira,
e com sua espaçonave-charrete movida a chiclete,
na Lua, nosso planeta,
plantar bananeira.

Wednesday, June 28, 2006

=Vícios de Jardinagem=

“Morreram todas! TO-DAS!”. Foi por culpa da ganância, só pode ser – tragédias não acontecem de uma vez, mas são milimetricamente desenhadas e se auto-planejam ardilosamente, mais rápido e precisamente que qualquer teoria conspiratória biológica, física ou mecânica. Óbvio que uma ajudinha de um ser humano ansioso, imperfeito e vulgar libera uma energia tremenda para que o evento ocorra mais rapidamente e com toda a crueldade possível. Já era tarde, o dia tinha sido difícil, a noite anterior ainda deixava um resquício de transtorno na sua cabeça e tudo parecia girar rápido, tão rápido que nem pensou quando organizou todo o equipamento da matança. Um assassinato que como a maioria só mostrou como a vida é frágil depois de consumado – não havia sangue, mas o cheiro de morte no ar era inconfundível, ainda que nunca o tivesse sentido antes.

O susto. O desalento. A redenção.

Eis que surge o cliché do matador quase por acaso, aquele que desiste no último segundo mas depois descobre que o que fechou a questão foi o segundo impulso e não o primeiro, a misericórdia inerente ao experiente, mas neste caso uma tolice sem tamanho. Não é de hoje que os mais impuros sofrem com seus atos, só que os ingênuos esclarecidos (também conhecidos como idiotas iluminados) são exímios mestres quando o assunto é causar dano a si mesmo, na mais alta competência e sofisticação, geralmente não danos irreparáveis como a morte – só que neste caso a morte fez seu ato. Fez de conta que não era nada, virou os olhos e não quis ver o tamanho da estupidez e só se deu conta dois dias depois, quando cheiro de amônia lhe feriu as narinas e o resquício de viço nas lindas meninas ainda aparecia, mas se foram como um sopro. O verde queimado das folhas denunciava a agonia rápida, porém cheia de ensinamentos nas entrelinhas – começarão de novo, ah se começarão....

Monday, June 26, 2006

=Bolinho de Chuva =

Chuva de criança é mais bacana, só que sair de casa é mais difícil. O bom é usar galochas que viram botas espaciais com solas de extra-atrito, saltos propulsores, potente na lama. O cheiro do asfalto molhado (criança de cidade lembra de asfalto molhado e não do cliché da “grama recém cortada”), o trânsito complicado e barulhos diferentes, os guinchos dos freios e o som dos pneus. O rádio do carro do pai dava notícias estranhas e que soavam ruins, mas o quentinho a caminho do colégio dava uma pontinha de saudade de casa.

Mas o pior de tudo é que hoje não vai rolar de brincar na árvore e vão todos se dedicar à socialização masculina nos cantos obscuros da escola – o que inclui humilhar alguém mais fraco, mais tímido ou mais inteligente. E se adulto para sobreviver precisa de experiência, dinheiro e vocabulário, criança não tem nada disso e mesmo assim se vive, e é bom, porquê criança sabe olhar pra um dia de chuva e achar legal que chova. Ninguém sabe aproveitar melhor o tédio que uma criança, e depois que se vira adulto a complexidade dos desejos te deixam inflexível e incapaz de sair de casa sem um cartão de crédito ou de encarar seus tédios. Referencial é tudo mas infeliz de quem acha que seu referencial é regra, por mais perfumada que pareça, e não se conforma em achar errado que jovens têm de envelhecer – mais certo seria que bons jovens não envelhecem.

E, aí, vai de cada um saber apreciar a chuva.

Friday, June 23, 2006

=RESSACA=

http://teste.overmundo.com.br/banco/ressaca

Quase todo dia é desconhecido, já outros tem-se a certeza da previsibilidade. Chatice, mesmice e outras “ices”. Esse era do segundo tipo, e nada havia o que pudesse ser feito para que de alguma forma fosse de um céu mais limpo, um dia mais cheio de prazeres. Um dia de ovos de pardal prestes a se abrir no ninho roubado de uma rolinha. Ontem mesmo os ovinhos estavam lá, e para não impregnar o dia de leviandade, que lhe parece uma preocupação bem prazeirosa como a dúvida entre mais meia ou uma hora de sono naquela tarde sem graça – e o que mais esperar do dia que começa depois do almoço, que aliás simplesmente não existiu? Dois alka-seltzers valem o almoço, porquê a náusea fica, grudada em algum lugar vazio entre alma e estômago.


Para não olhar pra fora do apartamento e deparar com uma vitrine de desgraças anunciadas ou alguma coisa bucólica e fofa que pode te deixar de incurável mal-humor, melhor pensar que ainda é muito cedo e que o mundo lá fora tem algum impedimento à sua integridade como, por exemplo, gente. Mas memórias são indeléveis e quando você menos espera, sua fantasia psicótica se transforma em mais uma razão para que você se ache realmente mais sensível do que a maioria das pessoas, num movimento de auto-comiseração que faz todo o sentido do mundo naquele instante e te enche de alívio por ser ao menos uma explicação pra tanta agonia. Sempre foi assim. Prazeres idiotas e pessoas desagradáveis que dão a sensação da morte, da vida se esvaindo como um sopro leve e você achando graça de tudo aquilo porquê com o medo do perigo você consola sua pequeneza, se agracia com seus delírios acreditando apenas na parte da história que te convém. Um dia ou outro isso deve acontecer com qualquer pessoa.

Olhar distante para a janela ainda não é opção válida pois qualquer fresta de luz poderia desmanchar seus planos e convidá-lo a espiar o “lá-fora de esquisitices e outras ices” das quais é melhor não tomar conhecimento, principalmente quando um apartamento fica tão próximo um do outro, as janelas da sala frente a frente, a vida privada escancarada. Das últimas vezes que tentou olhar para fora viu a velha quase careca sentada, poucos cabelos com tinta a e assistindo a algum programa religioso na televisão – e o volume altíssimo não deixava dúvida do que se tratava, apesar do aparelho ficar de costas para a janela e não se enxergar nada que estivesse passando na tela. Com cuidado ficou a espiar e viu que ela balbuciava baixinho as canções, daquele jeito bem de velha mesmo, batendo os lábios como se estivessem tremendo igual faziam as benzedeiras do interior, daquelas que curam saudade de casa e dor de barriga orando com uma mão pousando levemente sob sua cabeça. E ainda por cima velhos são flácidos, enrugados e cheiram a alfazema.

Abriu a janela, os dois ovinhos haviam se quebrado, e não estavam mais lá - e mais um dia difícil começado na metade havia sido cuidadosamente elaborado.